
A faculdade que parecia pertencer a outra família
O Prouni abriu bolsas para estudantes de baixa renda. A formação superior deixou de exigir, para milhões, o pagamento de uma mensalidade impossível.
A mensalidade podia encerrar o plano antes de qualquer prova. Para uma família que mal pagava as despesas do mês, estudar numa faculdade privada era uma conta distante. A criança podia crescer ouvindo que precisava estudar, mas chegar ao fim do ensino médio e encontrar uma porta cujo preço ninguém em casa conseguia pagar.
O Prouni enfrentou essa barreira. Criado no governo Lula e estabelecido pela Lei nº 11.096, de 2005, o programa passou a oferecer bolsas integrais e parciais em instituições privadas de ensino superior. O acesso considera desempenho no Enem e critérios sociais. A renda da família, que antes afastava o estudante, passou a fazer parte da política de ingresso.
Uma bolsa integral retira a mensalidade da conta. Uma bolsa parcial reduz esse custo pela metade. Transporte, alimentação, material e disponibilidade para estudar continuam pesando, mas eliminar a maior despesa altera a viabilidade do curso. O esforço do estudante ganha uma chance de se transformar em formação, sem exigir que a família possua patrimônio.
O alcance acumulado é grande. Nos balanços de vinte anos divulgados pelo Ministério da Educação, o Prouni já havia beneficiado mais de 3,5 milhões de estudantes até 2025. O número reúne trajetórias ao longo de diferentes governos e situações diversas. Cada bolsa representa uma entrada num espaço que antes podia estar financeiramente fechado.

Ser o primeiro universitário da família muda também a relação com o futuro. A casa passa a conhecer calendários, provas, estágio e profissões que antes apareciam apenas no trabalho de outras pessoas. Irmãos mais novos encontram uma referência próxima. A formação deixa de ser uma ideia abstrata quando alguém do mesmo endereço consegue iniciar o caminho.
O Prouni integra uma transformação mais ampla. Durante os governos Lula, universidades federais foram ampliadas e novos campi chegaram ao interior. Bolsas na rede privada e expansão da rede pública são caminhos distintos para aumentar o acesso. A política educacional precisa enxergar as duas portas e as necessidades de permanência depois da matrícula.
A crítica de que bastaria esforço individual ignora o preço de uma barreira. Dois jovens podem estudar muito e ter condições completamente diferentes de continuar. Um encontra mensalidade paga, quarto e tempo; outro precisa sustentar a casa. A bolsa não estuda no lugar de ninguém. Ela permite que a seleção e o esforço ocorram num terreno menos desigual.
Uma matrícula ainda precisa chegar à conclusão do curso. Garantir permanência, qualidade e oportunidade profissional continua sendo necessário. A criação do Prouni, porém, deu uma resposta concreta à família que olhava para a mensalidade e desistia: o ensino superior também podia ser um plano possível para seus filhos.
