
O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, usou a tribuna da Assembleia Geral da ONU nesta quarta-feira (23) para responder diretamente à ameaça feita por Donald Trump no dia anterior. Diante de representantes de 193 países, ele acusou o presidente dos Estados Unidos de adotar uma “mentalidade de intimidação”, afirmou que os iranianos não vão se render e disse que a pressão americana tende a fortalecer a resistência interna.
Trump havia colocado o Irã diante de uma escolha explícita: aceitar um acordo nos termos defendidos por Washington ou enfrentar a “aniquilação” da República Islâmica. A declaração foi feita durante o discurso do presidente americano na ONU, sete meses depois do início da guerra entre Estados Unidos e Irã. A fala levou para o centro da Assembleia uma ameaça militar dirigida a um Estado-membro e tornou a resposta iraniana um dos momentos mais tensos da reunião anual em Nova York.
A delegação dos Estados Unidos deixou o plenário no início do pronunciamento de Pezeshkian, segundo a Reuters. O gesto reduziu ainda mais o espaço para uma resposta diplomática imediata. Mesmo assim, o iraniano repetiu várias vezes que Teerã aceita negociar o fim do conflito, desde que a conversa não seja conduzida sob ameaça de destruição ou exigência de rendição.
A resposta veio um dia depois da ameaça de aniquilação
No discurso de terça-feira (22), Trump defendeu a guerra, afirmou ter impedido que o Irã obtivesse uma arma nuclear e pediu que outros países se juntassem ao isolamento econômico de Teerã. Também previu que um acordo poderia ser alcançado depois das eleições legislativas americanas de novembro, embora tenha negado que o calendário eleitoral interfira em suas decisões.
A formulação mais grave veio quando Trump disse que poderia “aniquilar a República Islâmica” caso não houvesse acordo. A ameaça não foi apresentada como simples advertência contra uma instalação militar. O presidente americano falou em destruir o regime rapidamente e em não deixar ao país “chance de sobrevivência” ou de reconstrução, segundo a íntegra do pronunciamento divulgada pela imprensa.
Pezeshkian respondeu enquadrando a guerra como agressão dos Estados Unidos e de Israel. Mostrou fotografias de vítimas e citou o ataque de 28 de fevereiro contra uma escola primária em Minab. Autoridades iranianas atribuem mais de 175 mortes de crianças e professores ao episódio. O Pentágono ainda não divulgou a conclusão de sua investigação, mas uma apuração inicial das Forças Armadas americanas indicou que tropas dos EUA provavelmente foram responsáveis, conforme reportagem da Reuters.
O presidente iraniano também rejeitou a acusação de que seu país seria o principal patrocinador do terrorismo. Disse que o Irã foi vítima de ataques e sustentou que as ações militares de Teerã foram defensivas. Essa é a versão apresentada pelo governo iraniano e não elimina as acusações internacionais contra a República Islâmica, seu apoio a grupos armados na região nem a repressão interna promovida pelo regime.
O discurso não defendeu uma bomba iraniana
Um ponto do pronunciamento foi reproduzido de forma imprecisa em parte da repercussão nas redes sociais. Pezeshkian não defendeu que o Irã tenha armas nucleares para se proteger. O registro oficial da Assembleia Geral diz o contrário: ele afirmou que o programa iraniano se destina a fins pacíficos e resumiu sua posição na fórmula “sem armas nucleares e sem limitações à nova tecnologia nuclear pacífica”.
A distinção é decisiva. O Irã reivindica o direito de dominar tecnologia nuclear para medicina, agricultura, indústria e geração de energia, mas declara não buscar uma bomba. Pezeshkian disse que o país não aceitará que esse conhecimento permaneça reservado a poucas potências. A Reuters registrou a mesma mensagem em outra tradução: “Nem armas nucleares, nem abandono do conhecimento nuclear”.
O governo iraniano também acusou as potências ocidentais de aplicar dois pesos e duas medidas. Pezeshkian comparou as inspeções e sanções impostas a Teerã com a ausência de fiscalização internacional equivalente sobre Israel, que não integra o Tratado de Não Proliferação Nuclear e mantém uma política de ambiguidade sobre seu arsenal. A crítica não resolve as dúvidas sobre o programa iraniano, mas esclarece a posição apresentada na ONU: preservar capacidade tecnológica, aceitar garantias verificáveis e negar a intenção de produzir armamento.
Trump, por sua vez, tratou o programa iraniano como ameaça nuclear já neutralizada pela ação militar americana. Ao combinar essa alegação com a possibilidade de aniquilar o regime, reforçou em Teerã o argumento de que países submetidos à força não podem depender apenas de promessas externas para garantir sua segurança. Pezeshkian advertiu que um sistema internacional no qual a lei vale apenas quando convém às grandes potências empurra mais governos para a autodefesa sem limites.
Diplomacia aberta, rendição descartada
A resposta iraniana reuniu duas mensagens que convivem em tensão. De um lado, Pezeshkian afirmou que o país não vai se curvar, que precisa manter capacidade militar de dissuasão e que as ameaças de Trump aumentam a unidade nacional. De outro, insistiu que a guerra não resolverá a disputa nuclear e que ainda existe espaço para um acordo capaz de oferecer garantias sobre a natureza pacífica do programa.
O Estreito de Hormuz tornou-se parte central dessa negociação. A passagem concentra cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito transportados no mundo. Pezeshkian disse que não é aceitável que outros países se beneficiem da rota enquanto o Irã enfrenta restrições à navegação em suas próprias águas. Segundo a Reuters, Teerã enviou por mediadores suas condições para reabrir integralmente o corredor.
A Assembleia da ONU expôs a distância entre as duas posições. Trump oferece reconstrução em troca de submissão às exigências americanas e, no mesmo discurso, mantém a destruição do regime como alternativa. Pezeshkian aceita negociar, mas recusa que a ameaça seja o ponto de partida. Com a delegação americana fora do plenário durante sua fala e a guerra ainda pressionando petróleo, comércio e segurança regional, a disputa terminou o dia sem aproximação concreta.
O próximo movimento dependerá das conversas indiretas e das condições apresentadas pelos dois governos. A fala iraniana não anunciou mudança na doutrina nuclear nem adesão às exigências de Washington. Serviu para registrar, no principal fórum diplomático do mundo, que Teerã separa a recusa à bomba da recusa em abandonar conhecimento nuclear — e que não considera uma ameaça de aniquilação uma base aceitável para negociar.
Fontes consultadas (4)
- Assembleia Geral da ONU — discurso de Masoud Pezeshkian, 23/09/2026
- Reuters — Pezeshkian acusa Trump de intimidação, 23/09/2026
- Reuters — Trump ameaça aniquilar o Irã, 22/09/2026
- Presidência do Irã — posições apresentadas na ONU, 23/09/2026
