
A Meta desabilitou a conta oficial de anúncios da campanha de Lula na quarta-feira, 23 de setembro, a dez dias do primeiro turno. A medida impediu a criação e a veiculação de novos anúncios e bloqueou o uso e o compartilhamento dos públicos organizados pela campanha.
A empresa norte-americana apresentou uma frase genérica: “algumas das suas atividades não seguem nossas regras”. Não informou qual anúncio, publicação ou procedimento teria provocado a punição. Uma candidatura registrada à Presidência foi retirada da principal praça de publicidade política do país sem receber uma acusação que pudesse contestar.
Isso é um absurdo eleitoral. A Meta alterou, por decisão própria e sem explicação pública, a capacidade de uma candidatura falar com os eleitores na fase mais decisiva da campanha. Não é preciso apagar a página de Lula ou impedir publicações orgânicas para produzir prejuízo. Basta cortar o alcance pago quando faltam dez dias para o voto.
Uma empresa norte-americana apertou um botão
A gravidade aumenta porque as regras eleitorais retiraram os perfis de candidatos dos sistemas de recomendação orgânica das plataformas. Na prática, o impulsionamento regular se tornou um dos poucos caminhos permitidos para ampliar a distribuição de conteúdo eleitoral. Foi exatamente esse caminho que a Meta fechou para Lula.
A coligação Brasil Pronto pra Mais e o PT exigiram o restabelecimento da conta “Eleições 2026 Luiz Inácio Lula da Silva Presidente” em até seis horas. A notificação afirma que o bloqueio rompe a paridade entre as candidaturas e favorece os adversários de Lula. A campanha também anunciou que poderá recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral.
O prejuízo não desaparece com uma reativação tardia. Cada hora perdida na reta final significa anúncios que não foram exibidos, públicos que não receberam mensagens e dinheiro de campanha que não pôde ser usado no momento planejado. Se a punição foi um erro, a Meta interferiu por incompetência. Se foi deliberada, precisa explicar quem decidiu, com base em quê e por que escolheu esse momento.
Os anúncios falsos passaram
O contraste torna o episódio ainda mais escandaloso. Na semana anterior, um teste da organização britânica Eko submeteu à Meta quinze anúncios políticos falsos, produzidos com inteligência artificial, pagos a partir dos Estados Unidos e direcionados ao público brasileiro. Treze foram aprovados pelos sistemas da empresa. Entre eles havia informação falsa sobre a data da eleição, convocação para repetir o 8 de Janeiro e propaganda favorável a Flávio Bolsonaro.
Os anúncios do teste não chegaram a ser exibidos, mas atravessaram o processo que deveria impedir propaganda estrangeira, desinformação eleitoral e conteúdo sintético sem identificação. A conta oficial da campanha de Lula, registrada e identificada, foi bloqueada sem que a Meta apontasse uma única irregularidade concreta. A plataforma demonstrou tolerância automática com a fraude e rigor obscuro com uma candidatura real.
O bloqueio não aconteceu sozinho
O TSE investiga uma rede de centenas de perfis que usou publicações em colaboração para ampliar conteúdos ligados a Flávio Bolsonaro e atacar Lula, contornando restrições impostas às contas de candidatos. A Justiça determinou que a Meta preserve e entregue dados dessa operação. Ao mesmo tempo, Lula foi o principal alvo de conteúdos políticos produzidos com inteligência artificial durante a pré-campanha.
A Abin já classificou como crítico o risco de interferência dos Estados Unidos na eleição brasileira. O bloqueio da Meta não prova coordenação com Washington nem com a oposição brasileira. Prova algo suficientemente grave por si: uma corporação sediada nos Estados Unidos tem poder técnico para modificar a disputa presidencial brasileira e pode exercê-lo sem transparência imediata.
A Meta deve responder ao Brasil
Restabelecer a conta é apenas o primeiro passo. A empresa deve identificar a regra supostamente violada, apresentar o conteúdo que motivou a punição, revelar quanto tempo durou o bloqueio, medir quantos anúncios e pessoas foram afetados e entregar esses registros ao TSE. A campanha e a sociedade precisam saber se houve erro automatizado, decisão humana ou denúncia coordenada contra a conta.
Uma eleição presidencial não pode ficar subordinada a um painel interno da Meta. A empresa não recebeu voto, não exerce autoridade eleitoral e não pode impor uma punição decisiva sem explicar o fato que a justificaria. Quando uma plataforma estrangeira consegue reduzir o alcance de uma candidatura a dez dias da votação, a soberania brasileira já foi atingida. O TSE precisa agir agora, enquanto ainda existe tempo eleitoral para reparar o dano.
Fontes consultadas (7)
- Poder360, íntegra da notificação apresentada pela coligação Brasil Pronto pra Mais e pelo Partido dos Trabalhadores à Meta
- Folha de S.Paulo, relato do bloqueio e manifestação do secretário de Comunicação do PT, Éden Valadares
- Metrópoles, cronologia da restrição e pedido de restabelecimento da conta em seis horas
- Folha de S.Paulo, teste da organização Eko sobre anúncios políticos falsos aprovados pela Meta
- Tribunal Superior Eleitoral e UOL, regras sobre recomendação de perfis de candidatos e impulsionamento eleitoral
- Folha de S.Paulo, investigação sobre rede de publicações em colaboração ligada à campanha de Flávio Bolsonaro
- Observatório IA nas Eleições, levantamento sobre conteúdos sintéticos dirigidos contra Lula
