Ilustração editorial de Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas erguendo uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante ato político

Eleições 2026

Flávio tenta conter crise católica e pode abrir fissura entre evangélicos

O gesto com Nossa Senhora procura apagar o desgaste entre católicos, mas expõe a contradição religiosa da campanha.

Voa Lula · voalula.com

Flávio ergue Nossa Senhora para conter crise católica e pode abrir fissura entre evangélicos

Candidato levantou uma imagem da Padroeira durante ato em São Paulo. O gesto tenta conter danos entre católicos, mas provocou críticas na base evangélica que sustenta sua campanha.

Ilustração gerada por IA para o Voa Lula, baseada no registro público do ato

Flávio Bolsonaro levantou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida ao lado de Tarcísio de Freitas durante uma caminhada no centro de São Paulo nesta segunda-feira, 28 de setembro. A peça de crochê foi entregue por uma apoiadora, e os dois candidatos a ergueram diante das câmeras. O gesto durou poucos segundos, mas colocou a campanha de Flávio diante de uma contradição que pode sair cara na reta final.

A cena foi uma tentativa evidente de conter o desgaste entre católicos depois da circulação de uma informação falsa segundo a qual Flávio pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Não existe proposta do candidato nesse sentido, e nenhum projeto com esse objetivo tramita no Congresso. A mentira precisa ser chamada pelo nome, inclusive quando prejudica um adversário de Lula.

Uma resposta para católicos, um problema para evangélicos

Ao tentar provar respeito à tradição católica, porém, o candidato evangélico abriu outra frente de desgaste. Parte das igrejas protestantes reconhece Maria como mãe de Jesus, mas rejeita a veneração de santos e o uso de imagens como objeto de devoção. Nas redes, eleitores evangélicos criticaram a cena, e o comentarista Valdo Cruz chamou atenção na GloboNews para a ala que condena totalmente imagens de santos.

Isso não autoriza dizer que os evangélicos abandonaram Flávio. Até agora, nenhuma pesquisa mediu o efeito específico da fotografia. Mas a reação existe e mostra o risco político: para reparar o dano entre católicos, a campanha produziu uma imagem que pode soar como oportunismo ou desvio doutrinário para parte de sua base mais fiel.

Os números já acendem um sinal

A Quaest divulgada também nesta segunda-feira, com entrevistas realizadas de 24 a 27 de setembro, mostra Flávio oscilando de 49% para 46% entre os evangélicos no primeiro turno. Lula avançou de 23% para 27%. No segundo turno, Flávio passou de 58% para 54%, enquanto Lula foi de 28% para 30%.

A margem de erro do recorte evangélico é de quatro pontos percentuais. Portanto, as variações estão dentro da margem e não podem ser atribuídas nem à polêmica da Padroeira nem à fotografia, feita depois do encerramento das entrevistas. A pesquisa mostra que Flávio continua liderando nesse segmento, mas Lula ganhou terreno num momento em que religião voltou ao centro da campanha.

Entre os católicos, Lula chegou a 48% no primeiro turno, cinco pontos acima da rodada anterior. Flávio marcou 29%, oscilação de dois pontos. No segundo turno, Lula alcançou 50% entre os católicos, contra 37% do adversário. A tentativa de Flávio de responder à crise religiosa acontece, portanto, quando Lula amplia sua força entre fiéis católicos e também avança numericamente entre evangélicos.

Flávio usa a santa para tentar encerrar a crise

Um levantamento da AP Exata sobre 150 mil menções publicadas entre 24 e 26 de setembro encontrou críticas à fake news em 25,9% das mensagens e indignação com a suposta ameaça à Padroeira em 19,8%. Receios sobre a influência evangélica num eventual governo Flávio apareceram em 9,9%; críticas diretas à devoção de imagens, em 2,2%. A controvérsia é ampla, mas ainda não há medida confiável de seu impacto nas urnas.

Num país plural, o respeito entre religiões é indispensável. Flávio transformou a fé em instrumento de emergência eleitoral ao acusar a CNBB sem apresentar provas num dia, agradecer à entidade no outro e erguer uma santa diante das câmeras para tentar encerrar uma crise.

Lula entra nessa disputa com vantagem política e moral quando defende um Brasil em que católicos, evangélicos, religiões de matriz africana, outras tradições e pessoas sem religião tenham a mesma liberdade. O Estado é laico justamente para proteger todas as crenças. Fé merece respeito verdadeiro, não conveniência de campanha. E, na reta final, cada contradição de Flávio ajuda o país a enxergar a diferença entre governar para todos e usar símbolos para sobreviver até a próxima pesquisa.

Fontes consultadas (5)
  • RedeTV!, Flávio e Tarcísio erguem imagem de Nossa Senhora em ato
  • Correio Braziliense, Flávio ergue imagem de Nossa Senhora em ato com Tarcísio
  • CNN Brasil, levantamento da AP Exata sobre a controvérsia
  • JC, recorte religioso da pesquisa Quaest
  • Folha de S.Paulo, diferenças entre tradições católica e evangélica
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