
2003: Lula chegou e começou pela fome
A prioridade do primeiro governo foi assegurar comida. O Fome Zero abriu uma trajetória de renda, produção e proteção que mudaria o Brasil.
Lula iniciou o governo de 2003 falando de comida. Depois de uma campanha longa e de três derrotas presidenciais anteriores, o compromisso central não foi reservado a quem já tinha patrimônio. O novo presidente queria que os brasileiros pudessem fazer as refeições do dia, num país que produzia alimentos e ainda convivia com fome.
Em 30 de janeiro, lançou o Fome Zero em Brasília. No início de fevereiro, Guaribas, no Piauí, entrou na experiência de implementação. A escolha da prioridade tornava visível uma contradição nacional: crescimento e capacidade produtiva podiam coexistir com famílias sem dinheiro para comer. A produção, sozinha, não distribuía o acesso.
O Fome Zero reuniu ações e foi se desdobrando numa política de segurança alimentar. Renda, agricultura familiar, abastecimento, alimentação e participação social precisavam conversar. A urgência de uma refeição não eliminava a necessidade de criar condições permanentes. O governo procurava responder ao dia de hoje e ao que viria depois.
Ainda em 2003, foram criados o Programa de Aquisição de Alimentos e o Bolsa Família. O primeiro organizou compras da agricultura familiar para destinação social. O segundo reuniu transferências de renda numa política nacional. A família precisava ter comida e recursos; o produtor precisava encontrar um canal para vender.

A valorização do salário e o aumento do emprego também participaram da transformação. Comer depende de renda para quem compra no mercado. Quando o salário cresce e o trabalho aparece, a família recupera autonomia para escolher e adquirir alimentos. A política de combate à fome passou a incluir decisões econômicas que afetam o dinheiro disponível na casa.
Essa construção não terminou no primeiro ano nem se limitou a um nome de programa. Instituições, cadastros, serviços e formas de acompanhamento foram ampliados. Os governos seguintes herdaram uma rede que podia continuar avançando ou perder força. Em 2014, durante o governo Dilma, a primeira saída do Mapa da Fome reconheceu uma trajetória iniciada mais de uma década antes.
O retorno da fome nos anos seguintes mostrou o custo da descontinuidade e das crises sobre a vida de quem tem menos recursos. Na volta de Lula, em 2023, recuperar a proteção alimentar virou novamente prioridade. A nova saída do mapa, anunciada em 2025, pertence a essa história de reconstrução.
Começar pela fome deu uma direção ao governo: olhar primeiro para uma necessidade que não permite adiar a resposta. O menino que havia migrado com Dona Lindu chegou à Presidência e transformou alimentação em compromisso nacional. A política passou a ser julgada também pela panela das famílias, onde o resultado precisa aparecer todos os dias.
Fontes
- Agência Brasil: lançamento do Fome Zero em 30 de janeiro de 2003
- Lei nº 10.696: Programa de Aquisição de Alimentos
- FAO: Brasil e Mapa da Fome
